Estrategistas de mercado revisam projeções de lucro para 2026 após Casa Branca ignorar revés judicial e dobrar a aposta em tarifas de importação.
A lua de mel dos exportadores brasileiros com a recente vitória na Suprema Corte dos EUA durou pouco. Em um movimento que pegou o mercado financeiro de surpresa nesta semana, o governo de Donald Trump utilizou poderes emergenciais da Seção 122 da Lei de Comércio para instaurar uma nova barreira tarifária de 15% sobre produtos manufaturados e insumos básicos vindos do Brasil.
A medida é vista como uma retaliação indireta ao avanço das negociações do Brasil com o bloco do BRICS e visa reduzir o déficit comercial americano. Estimativas preliminares da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sugerem que, se mantida até o final de 2026, a nova tarifa pode representar um dreno de mais de US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 22,3 bilhões) na balança comercial brasileira.
Gigantes na Linha de Frente: Embraer e Siderurgia
O setor aeroespacial é um dos mais vulneráveis. A Embraer, que possui nos Estados Unidos seu maior mercado consumidor, viu suas ações oscilarem fortemente após o anúncio. Analistas do banco Goldman Sachs apontam que a sobretaxa de 15% pode comprimir as margens de lucro da companhia em até 8% no próximo ano fiscal, caso a empresa não consiga repassar os custos para os contratos de defesa e aviação comercial já assinados.
No setor siderúrgico, gigantes como Gerdau e Usiminas enfrentam um cenário de “tempestade perfeita”. Com o aço brasileiro já sofrendo restrições anteriores, a nova camada tarifária torna o produto nacional menos competitivo frente aos produtores domésticos americanos, que celebram a proteção de mercado. “O aço brasileiro é essencial para a infraestrutura dos EUA, mas com 15% de sobretaxa, o custo final para as construtoras americanas vai disparar, gerando inflação interna lá e queda de volume aqui”, afirma o consultor de comércio exterior, Marcos Lisboa.
O Efeito no Câmbio e nos Investimentos
A incerteza jurídica — com a Casa Branca ignorando precedentes judiciais para impor novas leis — tem afugentado o capital estrangeiro de mercados emergentes. O dólar, que já vinha sob pressão das tensões no Oriente Médio, consolidou-se no patamar de R$ 5,31, dificultando a importação de máquinas e tecnologias necessárias para a modernização da indústria nacional.
Para o investidor, o “Custo Brasil” agora ganha um novo componente geopolítico. Empresas com alta exposição ao mercado americano estão sendo negociadas com desconto, enquanto o mercado aguarda uma possível retaliação do governo brasileiro, que poderia taxar produtos de tecnologia e software vindos do Vale do Silício.


