Consumo das famílias e exportações sustentaram o crescimento no último trimestre, porém o esgotamento do crédito e a volatilidade cambial turvam o horizonte do novo ano.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, na manhã desta sexta-feira, os dados consolidados do Produto Interno Bruto (PIB) referentes ao ano de 2025. A economia brasileira registrou uma expansão de 2,3%, superando as projeções iniciais do mercado feitas no começo do ano passado, que orbitavam os 1,8%. O valor corrente do PIB atingiu patamares históricos, impulsionado pela resiliência do setor de serviços e pela safra recorde de grãos.
No entanto, o clima na Esplanada dos Ministérios e na Faria Lima não é de celebração plena. O detalhamento dos dados revela que o ritmo de crescimento perdeu fôlego no quarto trimestre, avançando apenas 0,1% em relação ao terceiro. Esse fenômeno, batizado por economistas como “ciclo de cautela”, sugere que os motores que puxaram a economia em 2025 podem estar operando no limite de sua capacidade.
Os Pilares do Crescimento em 2025
O grande protagonista do ano foi o Setor de Serviços, que cresceu 2,8%, beneficiado pela consolidação da economia digital e pela recuperação total do setor de eventos e turismo. A agropecuária, após um primeiro semestre de incertezas climáticas, recuperou-se com o escoamento da safra de milho e soja, contribuindo com uma fatia vital para o saldo da balança comercial.
A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) — indicador que mede o nível de investimento das empresas em máquinas e infraestrutura — apresentou uma alta moderada de 1,5%. Analistas pontuam que, embora positivo, esse número reflete a hesitação do empresariado diante das taxas de juros que, apesar de em trajetória de queda no Brasil, enfrentam a pressão de alta nos Estados Unidos e na Europa.
O “Ciclo de Cautela” e os Riscos de 2026
Para 2026, o Boletim Focus já começou a revisar as projeções para baixo. A mediana das expectativas para o crescimento deste ano caiu de 2,0% para 1,8% nas últimas duas semanas. Três fatores principais sustentam essa visão mais conservadora:
Câmbio e Inflação de Insumos: Com o dólar testando a barreira dos R$ 5,30 devido às tensões no Oriente Médio, o custo de produção industrial deve subir, pressionando os preços ao consumidor.
Endividamento das Famílias: O consumo, que responde por cerca de 60% do PIB, mostra sinais de fadiga. A massa salarial cresceu, mas o comprometimento da renda com dívidas bancárias permanece em níveis elevados.
Cenário Externo Hostil: A crise logística no Estreito de Ormuz e o preço do petróleo acima de US$ 85 criam um ambiente de incerteza que freia investimentos estrangeiros diretos (IED) no país.
“Tivemos um 2025 de colheita de reformas passadas, mas 2026 será o ano da prova de resistência”, afirma Roberto Mesquita, economista-sênior da Consultoria MacroTendências. “Sem uma nova agenda de produtividade e com o risco fiscal batendo à porta devido ao aumento dos subsídios energéticos, o Brasil corre o risco de estagnar na casa do 1% se o cenário externo não arrefecer.”
O Ministério da Fazenda, por sua vez, mantém o otimismo oficial, apostando que o programa de neoindustrialização e os investimentos em transição energética (o “PIB Verde”) serão suficientes para contrabalançar o cenário externo e manter o país em uma rota de crescimento sustentável acima da média da América Latina.


